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segunda-feira, 29 de julho de 2013

ARTIGO - ELISABETH ZORGETZ

A vaca sagrada que dá pouco leite 

A vaca sagrada que dá pouco leite, por Elisabeth Zorgetz - See more at: http://www.jornalbahiaonline.com.br/noticia/23536/a_vaca_sagrada_que_da_pouco_leite,_por_elisabeth_zorgetz#sthash.DGruUzqk.dpuf
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Enquanto nos digladiamos por recursos da vaidade política, nuvens pesadas de uma tempestade moral se amontoam à nossa volta. Simbolismos, nacionalismos, fascismos, partidarismos, são apenas gotículas eletrizadas desse temporal. Reforma política, por exemplo, que já parece um bom termo, realizável, quase palpável, fala sobre nada e para ninguém. Existe um drama conceitual na construção da nossa história contemporânea. História essa que se apropria do passado e faz com ele o que bem quer. Não nos enganemos, historiadores: como bem sabemos, as impressões da memória não são os documentos do ofício, mas da sociedade. E não há nada mais irresponsável na escrita da história do que as propriedades da democracia. Para começar com o seu apelo milenar, num aplauso duradouro a um exemplo racista, elitista, escravista, misógino e sabe lá o que mais como o grego estóico. A proposta, em verdade, é mesmo muito razoável.  Mas não pode ser um modelo de aplicação, que caia, de improviso, no colo cansado de um povo oprimido.

A democracia pressupõe o decoro com a liberdade. Particularmente, me zango com essa palavra: decoro. Mas, aos poucos entendi que assim parece porque a usamos para os desagrados. Um procedimento decoroso com a liberdade é respeitar a si mesmo, a sociedade, as micro e macro relações, e isso tudo apenas ponderando com genuína solidariedade. É promovendo um alheamento de si mesmo e se aproximando do outro que a verdadeira unidade é arregimentada. No fim, há tanta gente compartilhando as mesmas preocupações que não sobra espaço para a vaidade.

E é por isso mesmo que todos os discursos partidários e anti-partidários são absolutamente inúteis nesse momento. Da mesma maneira que a terra velha e maltratada sofre para brotar o bom fruto, a conjuntura partidária brasileira urge por reinventar-se. Mas que seja sem obscuridades sociais! Falta ainda muito para o universo se fazer entender que não há mais espaço para discriminações raciais, de gênero, e de tantas outras existências e disposições imutáveis. E o que a Reforma Política quer dizer mesmo? Que estarão (pois não estaremos) jogando o mesmo jogo, no mesmo tabuleiro, com os mesmos peões e bispos, com os mesmos dados, e algumas regras reformadas.  A santa democracia usa o sufrágio para calar, ao invés de dar voz. São jogadas na nossa cara uma ou duas opções anuais, pautadas no desespero e no desconhecimento. Eu não aceito essa democracia. Quero outra.

Hoje se completam quatorze dias que cerca de trinta homens, mulheres, jovens e crianças estão acampados em frente à Prefeitura de Ilhéus. Há muito frio, desconforto, fome, sede, resfriados, dores, estresse emocional, preocupação, medo. E acima de tudo isso, coragem. Coragem emanando de seus corpos e mentes, insuflada pelo trabalhador e dona de casa que passam para deixar seu pão e carne. Insuflada pelo estudo de uma documentação que a cada página se prova mais incongruente à realidade. E por tantas outras razões cheias de força e lutas cotidianas. Não se nega que muitos ilheenses se perguntem: o que vocês ainda fazem aí? E eles serão atendidos: Estamos aqui porque sabemos que o diálogo com o poder público não é condicional, mas permanente. Estamos aqui porque recebemos contratos, balanços, proposta de auditoria e comissões, e junto a tudo isso, o desprezo do prefeito, em falas e ações. O REÚNE ILHÉUS tem trabalhado exaustivamente sobre propostas de resolução da crise do transporte coletivo e sua utilidade pública, mas nenhuma foi ouvida. Resistiremos a essa velha ordem de governar, esse antigo regime. Não é de se admirar que os eleitos se espantem, afinal, o tempo criou um grande vazio da participação política popular na cidade e no país, vazio no qual o povo desamparou a gestão e a gestão desamparou o povo. Não há problema algum, agora que a lógica se reverte, abrupta.      

É um momento feliz para Ilhéus.

Inauguramos, ainda com seus tropeços, a comunhão entre o povo e seus representantes.

A autora Elisabeth Zorgetz é ilheense, membro do Coletivo Reúne Ilhéus, escritora e graduanda em História na UFRGS. É membro do Núcleo de História da Dependência Econômica na América Latina e trabalha a prospecção de estratégias focais de reforma agrária no sul da Bahia.

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