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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A VIOLÊNCIA NAS CIDADES TURÍSTICAS DO PAÍS

Cidades turísticas ameaçadas pela violência

A cabeleireira paulista Maria Cecília de Abreu, 58 anos, curtia tranquilas férias com uma amiga em Ilhéus, na Bahia, quando foi assassinada em abril deste ano. A história infelizmente não é apenas mais uma. Visitantes ou moradores de algumas cidades turísticas têm sido obrigados a conviver com uma dura realidade. O Mapa da Violência de 2012, elaborado pelo Instituto Sangari, com base nos dados do Datasus, aponta que 12 importantes paraísos turísticos estão entre os 100 municípios com maior número de assassinatos no país por 100 mil habitantes. Entre elas estão locais como Porto Seguro, na Bahia, Armação dos Búzios, no Rio, e Guaratuba, no Paraná. 

No ranking de mortes por arma de fogo, verificado em um estudo da Confederação Nacional dos Municípios em 2009, 11 dessas cidades também aparecem lá. Entender o porquê de tantas mortes não é tarefa fácil, mas pesquisadores indicam o próprio turismo como uma das causas a serem investigadas: 

- A economia dessas cidades gira em torno de um turismo que muitas vezes é predatório - contou Julio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisa do Instituto Sangari. As próprias cidades tem dificuldades para tratar o tema e acabariam escondendo a questão para não afugentar os próprios turistas. 

Perfil dos turistas precisa ser avaliado 

O coordenador do Observatório de Segurança Pública da Universidade Salvador (Unifacs), Carlos Alberto da Costa Gomes, também acredita que o turismo pode ser um complicador para a violência. Embora Gomes ressalve que os dados do Datasus podem estar desatualizados e que alguns municípios muitas vezes são utilizados como local de desova de corpos, o que desvia a atenção para o local onde os crimes ocorrem, o perfil dos visitantes do Nordeste ajudaria a explicar parte dos problemas: - O turista estrangeiro que vem ao Nordeste, que é de nível braçal em seus países de origem, vem atrás de prostituição e de droga. A propaganda que o Brasil faz de mulatas seminuas é um fato que contribui para a violência. Esse é um fenômeno que precisa ser repensado até para a segurança - observou o professor. 

Gomes conta que, em alguns fins de semana, as mortes aumentam em quase 150% e muitos mortos não são residentes. Para ele, a Bahia não consegue resolver preventivamente a questão do tráfico de drogas, colocando os entorpecentes como outro fator. 

O pesquisador Doriam Borges, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, também percebeu o problema nas regiões litorâneas ao observar essas cidades no índice de Homicídios na Adolescência (IHA) - dado que estima o risco que adolescentes, com idade entre 12 e 18 anos, têm de perder a vida por causa da violência. 

- Nas diferentes regiões do litoral do país, provavelmente em função da população flutuante que acaba visitando as cidades, há um aumento da violência. Nas do Rio, a gente vê uma sazonalidade em alguns meses do ano, e da semana em relação ao final de semana. Nessas épocas, o número de pessoas é maior e todos acabam mais expostos - afirmou Borges. 

Para o pesquisador, o aumento de pessoas circulando nessas cidades faz crescer as chances de potenciais de furtos, roubos e outros tipos de violência. Borges acredita que os municípios deveriam repensar suas políticas para os momentos das férias. - Acho que é interessante que esses municípios se articulem para pensar nas políticas de prevenção, seja de policiamento ou outro método, sempre prevenindo essas situações, horários, locais, tipo de violência que mais acontece - afirmou. 

- Outra indicação que fazemos é a produção de um diagnóstico. Você consegue detectar os problemas e propor estratégias. As secretarias de Segurança Pública dos estados não acreditam que o turismo e o fluxo de pessoas ocasionado por ele sejam o fato principal para explicar a alta taxa de homicídios registrada nas cidades. No Paraná e na Bahia, as autoridades dizem que o tráfico de drogas, principalmente o crack, tem feito com que os índices de mortes tenham aumentado. 

- As áreas onde faltam oportunidades de emprego contribuem muito para o envolvimento das pessoas com o crime. Você atrai pessoas do interior com a promessa de trabalho, e quando elas não encontram, vão para o narcotráfico, que ganhou espaço com o crack. Além disso, as estruturas de segurança não cresceram na mesma velocidade que o crack - avalia o secretário de Segurança da Bahia, Maurício Teles. 

No Paraná, que neste ano verificou 44 assassinatos, um aumento de 175% em comparação com o primeiro semestre de 2011, o secretário de Segurança Pública, Cid Vasques - que assumiu o cargo há pouco mais de um mês - disse que ainda está fazendo um diagnóstico geral da situação. Mas ele também refuta o turismo como explicação. 

- A violência não está associada ao aumento do fluxo de pessoas. Pode ter inúmeras causas, falta de policiamento, deficiência em serviços como educação, inclusão, mas não dá dizer 'efetivamente a causa é essa' - afirmou Vasques. 

Vasques anunciou que está reforçando o policiamento com duas novas delegacias de polícia para a região e a compra de 1.220 viaturas. Por meio de nota, a Secretaria de Segurança do Rio disse ser "difícil associar diretamente o aumento nos números de homicídios com a presença da atividade turística" e reforço que Cabo Frio, Armação dos Búzios e Paraty registram queda na taxa de homicídios dolosos. 

Fonte: O Globo

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