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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ARTIGO - ISRAEL NUNES

O BRUXO DAS FRENTES

Quando o ano acabar, se acabar, a única certeza que tenho é a de que em 2013 escreverei outro livro. Dessa feita, não será um livro técnico. Pelo menos não no sentido que habitualmente se atribui ao termo “técnico”. Será um livro de crônicas políticas, especialmente das crônicas políticas de Ilhéus.

Mas não todas elas. Só as narradas a mim por um recente amigo, José Henrique Abobreira, que conheci por intermédio do blogueiro Emílio Gusmão. A amizade com Emílio Gusmão nunca me rendeu um centavo. Em contrapartida, me trouxe grandes riquezas. José Henrique Abobreira é uma delas.

Abobreira é uma daquelas pessoas a quem podemos chamar de bruxo. Penso que essa alcunha de feiticeiro quem lhe deu foi Gusmão. Ou Carlos Pereira, outro amigo. Não sei ao certo. Mas, voltemos a Abobreira.

É um bruxo este homem. Com seu falar e suas ideias, põe encantos e feitiços nas mentes. Isso porque sabe ler os corações. Anima-nos quando esmorecemos, sabe tocar nos egos e mexer nos brios de modo a influenciar as ações daqueles que estão à sua volta. E recentemente descobri que com alguns abracadabras, cura até pressão baixa.

Contou-me Abobreira que, quando era vice-prefeito e Secretário Municipal, um cidadão, certamente ensandecido, comparecia diuturnamente à sua Secretaria, pleiteando uma verba de cinco mil reais para pôr em andamento uma ideia mirífica.

O doidivanas sustentava, com veemência mas apenas murmurando para o Secretário, temendo ser ouvido por outro de igual matriz psiquiátrica, que tinha descoberto um modo de fabricar ouro. Isso mesmo, um jeito de fabricar o metal do rei Salomão.

Quando o bruxo, contando-me isso, chegou nessa parte da história, o interrompi, já rindo, de maneira abrupta, afirmando que assim equivalia a forçar a amizade. “Você vem me contar uma cuiuda dessas, Abobreira!”.

- Pois eu quero cair cego aqui! – O bruxo me repreendeu, com o dedo em riste.

Sem se fazer de rogado, Abobreira disse que o orates aparecia quase todos os dias atrás do sobredito recurso para transformar-se no Midas. E o Secretário, sempre educado e espirituoso, para dispensar o doido sem provocar escândalo, dizia-lhe que para arranjar o recurso era necessário apresentar um projeto, pois sem documento nenhum não tinha como justificar a despesa. Dispensava o insano alquimista dizendo que sem “papel”, só “de boca”, não dava.

Numa tarde, o Secretário havia chegado para o Gabinete com o humor alterado, fruto de problemas administrativos e desgastes naturalmente causados pelas atividades inerentes à política, quando o cidadão lá se encontrava à sua espera. Instado pelo maluco novamente, chamou-o de canto e diparou:

- Olha aqui, eu vou arranjar os cinco mil.

Apertou o cidadão ainda mais contra a parede, num tom sério e sussurrando com firmeza:

- Mas, veja bem! Eu estou nessa merda aqui é para roubar. Eu quero é me dar bem! Amanhã eu vou arrumar os cinco mil daqui da Prefeitura, mas metade da produção é minha.

Abobreira disse que o doido nunca mais apareceu. O bruxo atribui isso talvez à circunstância de que o elemento deve ter pensado que encontrou alguém mais ensandecido do que ele próprio.

Está óbvio que não acredito nisso. Não na história, mas na justificativa para o sujeito ter sumido. A razão só pode estar no fato de que o sujeito era ambicioso demais.

Digo isso porque, depois que passei a frequentar os meios políticos, uma coisa aprendi: tem doido demais na política, mas o número de ambiciosos é insuperável.

Israel Nunes é procurador federal.

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